O golpe do papel higiênico
Tem golpe novo na praça. E dessa vez não estão poupando nem seu fiofó.
No início era o Verbo. Aí o Verbo teve uma dor de barriga desgraçada e pofffff, mandou aquele barro federal. E fez-se o mundo. E viu-se que o mundo era uma merda. Mas como o papel higiênico só seria inventado muito tempo depois, o mundo ficou do jeito que tava mesmo, ou seja, uma merda. Quando ele finalmente foi inventado, a merda tava tão grande que não tinha mais papel que desse jeito. E assim estamos até hoje.
Li poraí que o papel higiênico foi inventado na China, século 14. Como foram os chineses que também inventaram a pólvora, imagino que as duas coisas devam estar ligadas: a cada explosão eles se cagavam de medo e aí uma coisa levou à outra. Tudo bem, não foi assim, eu me empolguei. Mas como era antes do papel? Bem, a gente sempre se virou como pôde, né? Nossos peludos antepassados também. Primeiro descobrimos que folha de bananeira não é o ideal. Então tentamos a de urtiga. O resultado não foi muito prazeroso – mas pelo menos serviu pra batermos o recorde dos oitocentos metros. Por um tempo então nos viramos com sabugo de milho. Depois com canjica. Nada dava certo. O melhor mesmo era na lagoa. Foi na água, por sinal, que descobrimos, como hoje todo surfista sabe, uma verdade universal: a merda segue o dono.
Então um dia alguém inventou o papel e daí pro papel higiênico foi preciso apenas uma coxinha estragada. E depois inventaram o picote no papel. Ah, o picote! Se você é muito novo, eu vou dizer como se fazia antes do picote: a gente rasgava o papel. É, era uma coisa bárbara… E nem sempre rasgava direito. Aliás, na maioria das vezes rasgava e depois percebia que não precisava tanto papel. Era um desperdício. E tinha vez que o cidadão tava meio afobado e dava um puxão no papel e ele não rasgava direito e aí o rolo desembestava e o papel saía desenrolando e caía no chão e molhava, era um saco. Tempos pré-históricos.
O primeiro papel com picote foi uma revolução. Vendeu horrores. A madame ia ao supermercado, via a novidade e inconscientemente captava a mensagem: veja, minha senhora, nossa empresa realmente se preocupa com o seu conforto e quer o melhor pro seu bolso e pro seu fiofó… De fato, arrear o barro é um momento muito importante na vida de uma pessoa. Expulsar pra sempre uma parte de nós… Parte essa que, por sua vez, será enviada de volta à terra. E que se decomporá e depois formará a estrutura biológica de plantas, animais e… humanos. Exatamente. Ou você nunca se apercebeu disso? Se a versão do Verbo cagão não colou, convença-se pela biologia. Não é a coisa mais agradável de se dizer por aí mas a verdade é que somos todos feitos de merda. Eu, você, sua mãe, todo mundo. Sim, a Sandy também, até mesmo ela.
Aliando praticidade e economia, o picote se mostrou um sucesso estupendo. A cada tantos centímetros um picote. Juntava três pedaços e pronto, era a medida exata pro cidadão limpar o zebedeu. Sem desperdício. Perfeito. Os outros fabricantes, claro, seguiram atrás. Hoje é difícil encontrar papel que não tenha picote. Depois vieram a folha dupla e o papel perfumado. Mas isso aí, tenha paciência, já é frescura demais. Parece que inventaram também o papel umedecido. Comassim? Limpa e lava ao mesmo tempo? Só vendo.
Então um dia lá tô eu expulsando um pedaço de mim, ó metade amputada de mim, quando percebo algo estranho. No barro não. O barro tava normal, ele lá embaixo olhando pra mim com aquela carinha de quem diz: “Adeus, amigo, foi bom enquanto durou…” O estranho era com os picotes do papel, estavam mais espaçados entre si. Três pedaços era muito e dois era pouco. Que fazer? Desperdiçar papel ou correr o risco de melar a mão? Ou rasgar o papel fora do picote, voltando aos tempos de copro-troglodita? Mais um golpe no bolso do consumidor. No bolso de trás.
Mas esse cara vai criar confusão por causa de doze centímetros de papel? Vou sim. Doze hoje mais doze amanhã são cinco metros no fim do mês. Isso cagando só uma vez por dia. Cem mil pessoas desperdiçam quinhentos mil metros de papel por mês. Quinhentos quilômetros de papel. É papel demais! Dá pra limpar merda do Rio até São Paulo. E se for folha dupla dá pra ir e voltar.
Não podemos nos calar diante de mais esse escândalo nacional. Querem explorar até o cocô da gente! Por isso convoco todos os leitores pra protestar nos supermercados. Vamos exigir que as fábricas respeitem a distância regulamentar dos picotes.
É. É a lei primeva, aquela que vem desde o início dos tempos: êta mundinho de merda…
Fonte: http://opovo.uol.com.br/colunas/kelmericas/717636.html





